Published: 11 de Setembro, 2025

Ultraprocessados: afinal, são mesmo prejudiciais à saúde?

Nos últimos anos, os alimentos ultraprocessados (UPFs) têm sido associados à obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e outros problemas de saúde. Mas será que todos os produtos industrializados são igualmente prejudiciais? Um artigo recente da revista Nature e estudos de investigadores como Carlos Monteiro, Kevin Hall e Ciarán Forde ajudam a esclarecer a questão.

O conceito de ultraprocessados

No início dos anos 2000, o investigador brasileiro Carlos Monteiro percebeu um fenómeno paradoxal: apesar das famílias brasileiras estarem a comprar menos açúcar, sal e outros ingredientes tradicionais, os índices de obesidade e diabetes continuavam a aumentar. O problema não era a quantidade de ingredientes, mas como eles eram consumidos: menos açúcar e sal em sobremesas caseiras, mas mais em bolos industriais, cereais de pequeno-almoço, pizzas congeladas e nuggets de frango. Assim surgiu o conceito de ultraprocessados: alimentos que passam por múltiplos processos industriais e contêm aditivos raramente usados em cozinhas domésticas.

Estudos observacionais: evidência de longo prazo

Pesquisas em larga escala mostram que dietas ricas em UPFs estão associadas a obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, fígado gordo, alguns tipos de cancro, depressão e ansiedade.

Um estudo da Universidade de Harvard acompanhou 110.000 adultos durante mais de 30 anos e concluiu que quem consumia mais UPFs tinha 4% mais risco de mortalidade. O risco era especialmente elevado para doenças neurodegenerativas, mesmo após ajustar fatores como IMC, atividade física e histórico familiar. O mesmo estudo também mostrou que a qualidade da dieta pode influenciar o impacto dos ultraprocessados. Pessoas com dietas ricas em vegetais e frutos secos, mas com baixo consumo de refrigerantes, carnes processadas, sal e gorduras trans, apresentaram um risco de mortalidade muito mais baixo, mesmo que parte significativa da sua alimentação incluísse UPFs.

Segundo o epidemiologista Mingyang Song, “a associação entre consumo de ultraprocessados e mortalidade foi muito mais fraca quando considerámos a qualidade nutricional da dieta”.

Ensaios clínicos: evidência de causalidade

Estudo de Samuel Dicken: Adultos com excesso de peso seguiram duas dietas saudáveis segundo o guia do Reino Unido: uma baseada em UPFs e outra em alimentos minimamente processados, ambas com mesmos nutrientes. Resultado: perderam duas vezes mais peso na dieta minimamente processada, mostrando que o grau de processamento influencia o consumo calórico, independentemente da composição nutricional.

Estudo de Kevin Hall: Participantes puderam comer à vontade dietas ultraprocessadas ou não processadas, equilibradas em macronutrientes. No regime de UPFs, consumiram 500 calorias a mais por dia e ganharam 0,9 kg em duas semanas. O excesso de ingestão deve-se a fatores como: - Velocidade de ingestão - alimentos macios e fáceis de mastigar são consumidos mais rápido; - Densidade energética - UPFs concentram muitas calorias em pouco volume; - Hiper-palatabilidade - combinações de gordura, açúcar e sal estimulam o cérebro a comer mais. Este estudo sugere que os ultraprocessados enganam os mecanismos naturais de saciedade e levam ao consumo excessivo de energia — mesmo quando a dieta aparenta estar “nutricionalmente equilibrada” nos macronutrientes.

Estudo de Ciarán Forde: Mostraram que alimentos duros são consumidos mais lentamente e reduzem a ingestão calórica, mesmo entre UPFs. A combinação de densidade energética e textura explica grande parte do excesso de consumo.

Conclusão

A evidência científica sugere que os ultraprocessados: - Podem aumentar o consumo calórico, independentemente da qualidade nutricional; - São particularmente problemáticos quando são densos em energia e hiper-palatáveis; - Devem ser consumidos com moderação, enquanto a dieta prioriza alimentos frescos e minimamente processados.

Na EME Saúde, acreditamos que informação clara e rigorosa é a base para escolhas mais conscientes. Se precisa de apoio personalizado na sua alimentação ou quer aprender a gerir melhor os seus hábitos, os nossos profissionais de saúde (nutrição, psicologia e/ou psiquiatria) podem ajudar.

Fonte: Nature (2025). Are ultra-processed foods really so unhealthy? What the science says. Disponível em: https://www.nature.com/articles/d41586-025-02754-w

Marcação de Consultas

Faça a sua pré-marcação de consulta aqui!
Marque já a sua consulta
linkedin facebook pinterest youtube rss twitter instagram facebook-blank rss-blank linkedin-blank pinterest youtube twitter instagram